Os cem melhores

Na crônica “A mulher do piolho”, enviada dias atrás ao estimado leitor, mencionei no final a anedota da mulher do piolho, a exemplificar a teimosia cívica que precisamos ter para não desanimar diante de tudo quanto acontece de errado e ruim no Brasil. Embora antiga e supostamente conhecida, vários leitores pediram-me que a contasse. Vamos a ela: o sujeito discute com a mulher e, no calor da batalha, ela o chama de piolhento; ele vira fera; dá-lhe um tapa e manda repetir, se tiver coragem; ela repete – Piolhento! Outra tapa e ela – Piolhento! Ele ameaça esganá-la e ela continua repetindo o xingamento. O sujeito, transtornado pela raiva, arrasta a mulher para a beira de um rio e diz que vai afogá-la, se ela xingar de novo. E ela – Piolhento! Então ele a agarra, a enfia dentro d’água, submerge sua cabeça e desafia triunfante – Repete agora, sua vaca! Ela estica os braços para fora d’água e junta as unhas dos dedos polegares, como se estivesse esmagando piolho.
Ao vivo, com o gestual a ilustrá-la, a anedota tem mais graça, mas serviu como exemplo de teimosia encarniçada. Dito isto, vamos em frente, em busca de assunto para esta crônica. Poderia insistir na política, tema que tem facilitado a vida dos humoristas, como a do conhecido chargista Roque Sponholz, que me envia regularmente saborosas tiradas. Sim, o Brasil é prato cheio para o humor, muitas vezes amargo. As zombarias sobre os desmandos da política provocam risos e, ao mesmo tempo, sofridas reflexões sobre as mazelas nacionais. Infelizmente, o Brasil é uma piada pronta, como diz o Macaco Simão.
Mas o tema que me acode no momento é a moda atual de eleger os dez, ou cinquenta, ou cem melhores disso ou daquilo. O truque mercadológico é bom. O consumidor se impressiona e embarca. Se são os melhores filmes de todos os tempos, é preciso vê-los sem falta; se os melhores contos dos autores russos, ou brasileiros, ou japoneses etc., é indispensável lê-los; se músicas, ouvi-las sem demora. O recurso parece inofensivo e, de fato, não chega a ser grave, mas esconde um engodo. Induz o consumidor a pensar que a escolha encerra de modo irrefutável o melhor do universo pesquisado. Ora, isso não é verdade. Tais compilações expressam apenas a opinião de quem as realiza e podem, como é costumeiro, em boa parte divergir do gosto de quem as compra. Cada cão com o seu faro.
No plano literário, bem mais correto é quando a antologia não afirma reunir os “melhores”, ou “os mais belos” textos, e neste ponto merece referência o livro “200 Crônicas Escolhidas”, assinadas por Rubem Braga, editado pela Record, com crônicas selecionadas pelo próprio autor. Para os apreciadores do cronista, o detalhe vale como atestado de qualidade.
É preciso, portanto, cuidados com os adjetivos marqueteiros, que sempre embutem ardil para vender a mercadoria. Aliás, não é o que ocorre nas propagandas políticas? Não é fazendo essas trapaças que os Dudas Mendonças e Joões Santanas vendem Lulas e Dilmas ao povo brasileiro e ganham suas fortunas? Pois é.

Abril de 2017.

COMENTÁRIO