Agosto

Cuidado, amigos, muito cuidado. Agosto chegou e traz fama de ser um tanto aziago para o Brasil. Diz-se que é o mês do desgosto, ou de cachorro louco. A história do desgosto vem de longe. Contam que era em nesse mês, lá no século XVI, que as caravelas portuguesas partiam para as grandes navegações e o fato causava desgosto às esposas, noivas ou namorados dos marujos, pela incerteza se os amados retornariam.
A nos reforçar a crendice, no século passado dois acontecimentos políticos traumatizaram o País: o suicídio de Getúlio Vargas, em 24.08.1954, e a renúncia de Jânio Quadros à presidência da república, em 25.08.1961. As repercussões de ambos foram enormes e arrisco dizer que a renúncia de Jânio, mais do que o suicídio de Vargas, mudou a rota de nossa história. Não tivesse havido e o Brasil seria hoje diferente. Se melhor ou pior, quem há de dizer? Não teria ocorrido, por exemplo, a Revolução de 1964, que hoje virou moda chamar de golpe pela esquerda assanhada. Fico com revolução mesmo. Do contrário, a de 1930 e a proclamação da República também precisariam ser chamadas assim, mas isso ninguém faz. Nem os professores e sociólogos marxistas.
A saída de Jânio é um mistério nada misterioso. Fala-se em mistério pelo gosto pelo oculto, sempre mais saboroso que a verdade. É prazeroso falar da renúncia exalando um ar esotérico, com voz cavernosa. Segundo a lenda, Jânio teria bebido uísque além da conta e, sob efeito do álcool, com as ideias boiando em vapores etílicos, escreveu a carta de renúncia sob a pressão de forças ocultas. Coisas das sombras, do inexplicado, e o país se pôs a imaginar e indagar: por quê, meu Deus?
Antes, convém dizer que ele talvez não desse certo de nenhum modo. Era exótico, histriônico, instável, imprevisível e chegado ao uísque (Lula não foi o primeiro presidente afeito ao álcool). Gerenciava a casa por meio de bilhetinhos aos ministros e até hoje sua mente desafia interpretações. Ainda no começo do mandato, resolveu condecorar Che Guevara, o revolucionário cubano implacável com os adversários (fuzilou pessoalmente ou mandou fuzilar muitos deles). Um gesto de independência de Jânio em relação aos Estados Unidos, que naquela altura já não engoliam a Cuba comunista. Cá entre nós, precisava cometer tamanha besteira? Pegou mal, muito mal, mais ainda junto às Forças Armadas.
Pois bem. E o que pretendia Jânio com a renúncia à presidência? Ele acreditava que as forças políticas que o apoiavam, também os militares, viriam em seu socorro e lhe dariam o que ele considerava necessário para governar o Brasil – poderes extraordinários para enfrentar as tais forças ocultas que o impediam de bem governar. Ou seja, enfrentar o Congresso Nacional. Queria governar por decretos. Falasse e estaria falado, sem precisar se submeter às chantagens de deputados e senadores. Seria o cenário para a ação da vassoura que utilizou como símbolo de campanha. A vassoura que varreria porta afora a corrupção que já então dominava o Brasil. O Congresso Nacional se revelava, como hoje, um balcão de negócios. A manobra de Jânio pifou melancolicamente. Aceitaram a renúncia, ele viajou com d. Eloá para a Europa e deixou para trás um salseiro dos diabos. O vice-presidente era João Goulart, antevisto por muitos como incapaz para o cargo, muito mais chegado às boates e vedetes cariocas. Mas era o vice constitucional e Leonel Brizola berrava lá do Rio Grande do Sul, por meio da radiofônica Cadeia da Legalidade, que não aceitaria outra solução que não a posse do vice. No fim, chegou-se a um remendo danado: o parlamentarismo, que nasceu já com data de óbito cravada. Jango assumiu, logo voltou o presidencialismo, o presidente desgovernou, Brizola pôs lenha na fogueira, os brasileiros foram para as ruas pedindo o fim da anarquia, os militares saíram dos quarteis e deu-se revolução de 1964.
Convenhamos que o resumo aqui mostrado é resumidíssimo e simplista, mas serve para refrescar a memória sobre dois agostos trágicos. E também para dizer que o Brasil sofre patológica atração pelo abismo.

Agosto de 2017.

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