Ai, Brasil!…

Cronista vive do alheio. Caminha por aí e vai observando e ouvindo o que dizem a natureza e as pessoas e recolhe assuntos para as crônicas. Pois assim se deu sábado, 2 de setembro, na Boca Maldita. Entre um café e outro, fui à Boca do Brilho engraxar os sapatos. Apreciando o movimento e conversando com o engraxate, constatei que a crise econômica bateu para valer ali também. Vários e antigos engraxates (lustradores, conforme bordado na jaqueta preta que usam) abandonaram suas cadeiras e foram procurar novo rumo na vida. O movimento caiu demais e o recurso foi tentar algum outro serviço, para não morrer de fome. Desolador, amigos. As cadeiras vazias, abandonadas, são testemunhas singelas e mudas da debacle econômica do Brasil. E, segundo me informaram, não existem interessados em ocupá-las.
Não demorou e chegou, atrasado, diga-se, outro engraxate conhecido, um negro alto, magro, bom de conversa. Vinha com novidade. Passara uma noite de cão. Na véspera, seu neto, ainda garoto, apresentou séria infecção de garganta, com tosse de cachorro (ladrante, como dizem os médicos) e febre. Levaram-no à UPA (União de Pronto Atendimento) do bairro Tatuquara. Eram nove horas da noite. Apesar do empenho e pedidos junto à avaliadora da unidade, só conseguiram ser atendidos às três da manhã. O caso era grave, constatado pela médica que examinou o menino, mas a atendente se recusou a considerar o caso como emergência. Só por Deus!, exclamou o avô ao final do relato.
Dramas do cotidiano deste Brasil brasileiro tão aviltado e sem rumo, em que, como é de lei, os mais necessitados pagam a parte mais pesada da conta.
Se me permitem uma expressão mais forte, direi que o cidadão brasileiro decente sente nojo da pátria. Náusea soaria melhor, mais delicado, mas, diante do que estamos vivendo, as sutilezas e certos cuidados semânticos se revelam fora de lugar, sem propósito e necessidade. É preciso expressar, com contundência pertinente, o que vai na alma de milhões de brasileiros, vítimas da rapinagem generalizada havida nos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff. A propósito, aos que ainda têm ainda Lula no pedestal é preciso dizer que cada um tem o ídolo que merece. Aos aprisionados por ideologia nefasta e historicamente criminosa, Lula cabe bem como o grande líder e condutor. Mas ai do povo que se entrega a messias portadores dessa pequenez moral! E vale, neste ponto, pedir de mãos postas que Deus se apiede da Venezuela, país agonizante sob o tacão ditatorial do desqualificado Nicolás Maduro, recentemente elogiado por Gleisi Hoffmann, senadora da República e atual presidente do PT (Partido dos Trabalhadores). Este detalhe não é de estranhar. Faz parte da farsa e da tragédia latino-americanas.
Mas, dizia, o brasileiro sente-se enojado diante do que acontece com o País. E, pior, cada vez mais desesperançado de que, sem uma ruptura, sem mudança radical, pouco ou nada mudará. Nesta altura dos acontecimentos, alguém terá a candura de pensar que, com um Congresso como o que temos, altamente interessado em se proteger das investigações criminais e conservar os privilégios absurdos de que desfruta, será possível consertar o Brasil?
De modo que vamos empurrando com a barriga. Querendo acreditar que, nas eleições de 2018, faremos uma limpeza geral na política brasileira. Mas isso acontecerá? Imaginemos que consigamos eleger para presidente da república um homem honrado e competente, disposto a arrumar a casa. Todavia, se tiver pela frente um Congresso assemelhado ao de agora, sob o domínio dos Renans e Jucás da vida, enfrentará sérios problemas. Se quiser, por exemplo, acabar com os milhares de cargos comissionados, os aspones apadrinhados de Brasília, arrumará ferrenhos inimigos no Legislativo. A partir daí, não conseguirá aprovar nem mudanças no serviço de cafezinho do palácio. E ai dele se pretender mexer nos vencimentos indecentes dos senadores, deputados e magistrados! Seu cargo não valerá um mísero tostão.
É, amigos, a mão forte de que precisamos para varrer a sujeira e a infâmia que contaminam o Estado brasileiro requererá apoio amplo e poderoso. Será o povo, e só ele, capaz de oferecê-lo? Pergunta aberta à interpretação de cada um.

Setembro de 2017.

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