Alfredo

Na crônica “Ai, Brasil!…”, da semana passada, mencionei a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro Tatuquara, mas no texto apareceu União de Pronto Atendimento. O erro foi prontamente anotado por atento leitor e quase me fez cair de costas. Como “união”? Que besteira era aquela? Pois lá estava. O equívoco só pode ser atribuído ao corretor ortográfico do Word, útil na maioria dos casos, mas capaz de cometer erros desagradáveis de vez em quando. O ocorrido me fez lembrar do linotipista Alfredo, já mencionado em outras oportunidades. Para os que não se recordam ou não leram sobre ele, eis o caso: Alfredo era linotipista de uma gráfica curitibana em que se imprimia, no modo antigo, o periódico “Tribuna Platinense”, fundado em 1965 pelo meu saudoso amigo Noel Cândido de Moraes. Antigo na profissão, hoje extinta como tantas outras pelo computador, Alfredo considerava-se expert em português, muito mais pelos anos de prática no ofício do que pelo conhecimento formal de ortografia e gramática. De modo que, se no texto que linotipava encontrava algo errado em seu entendimento, não tinha dúvida – corrigia! Sem perguntar a ninguém. E por que haveria de indagar, se lhe havia certeza de seu conhecimento?
Era de amargar. Jornal impresso, ia-se ver e lá estava a correção do implacável Alfredo. Um bom exemplo foi quando escrevi num texto esportivo (naquele tempo eu enganava como cronista esportivo) a palavra “o moral”, no sentido de disposição de ânimo, e Alfredo substituiu por “a moral”. Em sua gramática, era substantivo feminino e estávamos conversados. Pois na modernidade de hoje, o corretor automático de textos do Word é o Alfredo na versão informática.
Na ocasião, a irritação que ele provocava era grande. Vinha o desejo de esganá-lo, mas o estrago estava feito, era empregado graduado na casa e se deixava de lado. Hoje, lembro-me dele com saudade. Não dele, propriamente, mas do tempo do qual fez parte, como os figurantes em pontas de filmes. Foi, no entanto, época difícil, e nem o romantismo da memória consegue alterar a realidade daqueles dias. A vida de estudante vindo do interior para a capital, com trabalho de dia e estudo à noite, salário pequeno que mal dava para as despesas essenciais do mês, morando em pensão ou república estudantil, estava distante do que se poderia considerar felicidade. Muitas coisas prazerosas da vida passavam ao largo, inalcançáveis para os nossos bolsos minguados. Em compensação, aprendia-se a valorizar uma fatia de pizza com vitamina na Lanchonete Acrópolis, uma alcatra com maionese no Bar O.K., ou um cachorro-quente com linguiça, no fim de noite, no carrinho do Gaúcho. Pequenos prazeres que nos deliciavam o estômago sempre receptivo. E um almoço de domingo em casa de parente era a oportunidade de compensar a fome da semana que terminava e amenizar a da que começava, e nos atirávamos ao arroz com feijão, à macarronada, ao frango, aos bifes com invejável disposição e alegria.
Tínhamos, então, a mocidade, sem incômodos de saúde e a cabeça repleta de planos e sonhos. Havia muito caminho pela frente e o fim da estrada se mostrava tão remoto que parecia nem existir, e a perspectiva do futuro sem fim, à espera das realizações sonhadas, fazia suportáveis os apertos e dificuldades do presente. Haveria tempo para tudo.
Muita água rolou e conhecemos a verdade que os moços descobrem algum dia. Que não há tempo para todos os sonhos e nem todos são realizáveis. Arrastamos, agora, nossas histórias e as vamos repetindo a ouvintes cada vez menos atentos. As dores nos chegam. Hoje é o joelho, amanhã, isso ou aquilo. Vem a tosse persistente, o pulmão afetado reclama de pequenos esforços, a impaciência desperta com os excessos da modernidade, a audição nos trai. Chega a saudade do telefone antigo, do rádio no apogeu, das salas de visitas, dos jornais impressos que vão desaparecendo, do tempo em que as longas distâncias nos faziam cultivar amizades, afetos e amores em caprichadas cartas. É, caro Alfredo, seu atrevimento em corrigir textos, tão irritante lá atrás, me chega agora com um sabor doce e precioso. É lembrança da mocidade que a gente contempla de longe, com a visão algo desfocada pela distância e emoção e com a ternura que despertam as coisas que se foram.

Setembro de 2017.

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